Pelo Caminho do Sabarabuçu

No século 17, a lenda sobre a existência de uma serra feita de pura prata fez com que o rei de Portugal ordenasse expedições à procura do eldorado.

O primeiro a chegar foi o bandeirante paulista Fernão Dias Paes Leme e seu genro, Manuel de Borba Gato. Vieram com cerca de 700 homens.

Corria o ano de 1677 e não demoraria para que a lenda se confirmasse.

Os bandeirantes fundaram arraial de Roça Grande, hoje Santa Luzia, e acharam não a prata mas ouro em abundância. Disputas se seguiram, provocadas pela cobiça: Borba Gato matou um enviado do rei para se assenhorar das terras ricas, e, enquanto estava foragido, encontrou novas e valiosas minas por toda a região. Negociou depois o perdão com o rei, em troca de ouro, muito ouro, extraído da Serra de Sabarabuçu (que na linguagem indígena significa serra que brilha).

A serra, depois chamada de Piedade, abrigou (e abriga) frutíferas explorações de ouro. E é pelos caminhos percorridos por bandeirantes, escravos, tropeiros e até pelo naturalista Auguste Saint-Hilaire que hoje passam caminhantes ou trekkers em busca de algo mais do que exercitar o corpo: querem respirar história e desfrutar a natureza.

O Caminho do Sabarabuçu foi integrado ao traçado da Estrada Real como uma extensão do Caminho Velho que abrange, em cerca de 150 quilômetros, as cidades de Cocais (distrito de Barão de Cocais), Caeté, Morro Vermelho (distrito de Caeté), Sabará, Raposos, Honório Bicalho (distrito de Nova Lima), Rio Acima, Acuruí (distrito de Itabirito) e Glaura (distrito de Ouro Preto).

Nos antigos caminhos não são poucos os testemunhos da época em que o ouro impunha as regras. É o que nossa pequena expedição foi "caçar", no trecho que fica no município de Sabará. Percorremos cerca de 10 quilômetros, ida e volta, saindo do bairro de Pompéu, em Sabará, por trilha de terra, até o Cemitério dos Ingleses e voltamos pelo antigo leito da estrada de ferro, da qual restam apenas as pedras de brita. Uma pequena aventura, a poucos quilômetros de Belo Horizonte e ao alcance de todos, desde que devidamente acompanhados.

No meio do caminho, foi preciso atravessar o Ribeirão Sabará e pequenos cursos d’água, equilibrar lentes e câmeras em pontes temerárias e enfrentar duas chuvas fortes.

Nada de mais. A exuberância da vegetação que o guia ecológico Nívio Moreira ia descrevendo e a história contada em detalhes por Ademir Simões, promotor de Turismo da Prefeitura de Sabará, alinhavaram passado e presente numa outra viagem que os grossos pingos de chuva apenas vieram complementar. De sobremesa, amoras silvestres e goiaba gelada pela água de chuva apanhados do pé.

A primeira boa surpresa da trilha é uma mina desativada, uma das muitas que ali existem. A região ficou conhecida como Chicadona. "O trabalho de abertura de uma mina envolvia milhares de escravos que enfrentavam a rocha na base da picareta. São estas marcas que a gente agora vê nas paredes", conta Ademir Simões, estudioso da história de Sabará e de Minas Gerais. Continuando a trilha, o guia Nívio vai mostrando os pés de mangaba, gabiroba, ingá...

De animais, diz que por lá existe o veado campeiro, quati, paca e aves como o jacu e o urubu-rei.

Aqui e ali, no meio do mato, pequenos muros de pedra e bases de pontes. A vegetação os cobriu, mas eles afirmam que por lá também há vestígios de um casarão do século 18.

A trilha – aberta pelos escravos e recuperada com o esforço de profissionais das secretarias municipais de Meio Ambiente e Turismo, Secretaria de Estado de Turismo e Instituto Estrada Real – vai subindo cada vez mais. É preciso fôlego.

Lá embaixo corre o Ribeirão Sabará, amarelado pela chuva forte. Um dos responsáveis pelo trabalho da prefeitura, Marcos Alexandre dos Santos, relata que para "confeccionar os caminhos, os escravos cortavam os barrancos em nível, sendo que, em alguns pontos onde o relevo era mais acidentado ou com vales mais encaixados, devido à dureza das rochas, às vezes se fazia necessário construir gabiões e taludes de pedra sobre pedra, posteriormente preenchidos com terra".

Ele também explica que os caminhos eram totalmente carroçáveis mas, com o tempo, as erosões de enxurradas, deslizamentos e outras intervenções descaracterizaram alguns trechos. A maior parte da estrada, por onde passavam carroças carregadas de ouro, é hoje bem estreita.